uma porta se abre, um corpo que vai embora

Isso, uma porta se abre, um corpo que vai embora, eu já havia lido em algum lugar, ms agora não tem importância. Na dita frase não cabe o que eu sinto...um corpo indo embora, ele que nem sempre esteve aqui... Antes se estivesse morto, completamente. mas depois da ida, parece estar. Porque tudo que ele deixou são lembranças, marcas que baldes de souvinil acrílica não cobrem.
O momento já havia se anunciado, mas não nos meus ouvidos, eu sabia que tudo mudava...E enquanto ele ía, eu lavava minhas bonecas. ele parecia tão feliz e eu me sentia tão velha. As bonecas também estavam felizes com o rubor de coisa nova, mas com cheiro de mofo. Elas eram velhas e eu não estava feliz.
Passou por nós, sem despedidas. ele nunca diz nada. e eu corri para me esconder, como se ele fosse lembrar de dizer algo parecido com adeus, voltar e abraçar. ele nunca abraçava ninguém..ou, talvez tenha, mas agora eu não consigo lembrar, pq todas as recordações estão embrulhadas no meu estômago e eu sinto vontade de vomitar meu choro... mas só consigo sentir o olhar de pena das flores de plástico, num vaso esquecido dentro do banheiro.
Ele Não levou malas, mas esvaziou meu quarto. e me encheu de dúvidas, daquelas que só o tempo responde. eu me senti criança, novamente. e me escondi.
Naquela tarde, água suja, bonecas ao sol...meu pai foi embora.
Eu queria poder dizer mais coisas, até secar toda a água dos meus poros, até secar qualquer coisa a dizer sobre o assunto pra não ter que falar nunca mais. As flores de plástico me escutam, atentamente...mas eu, apenas, não consigo.
Meu pai foi embora, enquanto as novas velhas bonecas secavam ao sol
enquanto eu me transformava em criança e chorava escondida
e abriu ainda mais o meu vazio
e não levou nada... nada...

No dia em que meu pai foi embora, e desde este dia, eu tive medo do tempo.

Naquela tarde, eu tive medo do escuro.

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